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Um Sínodo 'para' a África ainda muito 'romano'

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A II Assembléia Especial para a África se concluiu agora, a Mensagem ao Povo de Deus e o Elenco final das Proposições já foram dados à imprensa, e o Observatório – a iniciativa paralela de monitoramento e aprofundamento promovida pela CIMI (Conferência dos Institutos Missionários na Itália) e UCSI Lácio (União Católica de Imprensa Italiana) – imprimiu as súmulas do encontro, no decurso do VI e último encontro às margens do Sínodo, aos 23 de outubro passado, junto da casa generalícia dos Missionários da Consolata em Roma. No encontro interveio, entre outros, também o padre Paolino Twesigye Mondo, comboniano ugandense, assistente teólogo do cardeal John Njue de Nairóbi, missionário há sete anos nos cortiços da capital queniana.
A reportagem é de Giampaolo Petrucci, publicada na revista Adista, 02-11-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
A II Assembléia para a África colocou na devida luz os notáveis passos em frente com respeito ao precedente Sínodo de 1994, da caminhada da Igreja africana, mas não se pode esquecer que o próprio encontro também foi solicitado por muitas falências no Continente, tanto no nível político e social quanto no plano eclesial. Entre outras há, por exemplo, as tentativas de emancipar a liturgia e a teologia africana de Roma, que nestes últimos 15 anos tem feito sentir o sopro da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os esforços, com frequência vãos, de “africanização” da Palavra de Deus.
O mesmo padre comboniano, em sua intervenção de avaliação do Sínodo, testemunhou as muitas dificuldades do caminho da “Família de Deus” na África: “Quando alguém te dá uma malha de lã, tu sabes que a malha é dele, também se és tu que a vestes. Assim este Sínodo não é "da África", mas é "para a África"!
A estação da inculturação, que se devia abrir após o primeiro Sínodo, continuou o teólogo, “até agora parece ter feito um buraco na água” e, no entanto, “demasiado pouco foi feito”. Registra-se um retrocesso, disse ainda o padre Paolino, também no terreno de uma liturgia mais amplamente integrada na simbologia tradicional africana: o “demonstra a ausência dos nossos ritos na missa de inauguração do Sínodo deste ano” e a “relação entre a Igreja de Roma e a nossa Igreja”.
De positivo existe, segundo padre Mondo, que “este não foi um Sínodo ‘de joelhos’”, no qual os africanos “foram rezar e comemorar os santos”. A Assembléia enfrentou as chagas do Continente com lúcida concretude, sentindo-se legitimada a apontar o dedo quando necessário e reivindicando o próprio dever à denúncia que se faz profecia. De fato, disse padre Mondo, é tempo de mudar de rota, porque não podemos mais nos permitir representarmos “uma Igreja que fala bem, mas depois não age”. A mobilização para a mudança das condições de vida na África é um dever irrenunciável, precisamente em virtude da exigência evangélica de Lucas (4,16-20): somos convidados, parafraseou o comboniano, “para anunciar aos pobres a boa nova, para fazer que os cegos vejam e os aleijados caminhem, para libertar os prisioneiros e proclamar o ano da graça do Senhor. Era este o programa de Deus”. Os bispos e os teólogos africanos conduziram assim ao Sínodo toda a sua carga de frustrações: “Este modo de governar a África pode continuar? Sabemos de presidentes que usurparam o poder rompendo as Constituições. Mas depois, quando há encontros internacionais, vêm também para a Igreja mãe e encontram o tapete vermelho. Há alguns meses Mugabe esteve aqui para o encontro da FAO, e estavam também Museveni, Kabila e os outros. E as autoridades os saudaram no aeroporto como se fossem heróis. Não podemos continuar apoiando os governos africanos deste modo.
Padre Mondo aproveitou depois a deixa da II Assembléia Especial para a África para criticar as regras de jogo impostas pela assim dita “comunidade” internacional. Quanto à repartição dos recursos globais recordou que “o mundo produz alimento para 12 bilhões de pessoas”, mas depois, se é perguntado “aonde vai este alimento”?: “Hoje, somente na África inglesa, há em torno de 15 milhões de famintos. Também na paróquia em que trabalho em Karobangi, recentemente três pessoas morreram de fome. Então talvez haja alguém que faz mal os cálculos porque não sabe contar, ou, quem sabe, não queira fazê-los”.
Palavras duras sobre a crise ambiental, que diz respeito a todos, mas se abate sobre as economias rurais com maior violência: “Sabemos que os Estados Unidos recusaram firmar os acordos de Kyoto para a redução da imundície que lançam aos ares”. O aquecimento global, acrescentou, comporta para a África subsaariana longos períodos de seca alternados com verdadeiros e próprios furacões, causando a falta de água e a destruição de grande parte das colheitas das quais vivem as populações: “E que orgulho têm de andar a fazer a guerra no Afeganistão e no Iraque para levar a democracia, quando nos deixam famintos porque destruíram o ozônio?”
A comunidade internacional fecha os olhos diante das guerras que define como “étnicas”: “Como pode uma guerra civil – pergunta-se padre Mondo, refletindo sobre a crise dos Grandes Lagos – que já capturou dezenas de milhares de crianças soldados, continuar por 23 anos? Dizem que hoje os satélites militares podem olhar-te enquanto estás no banheiro. E por que os potentes africanos e a comunidade internacional não encontram os rebeldes para detê-los? Quem lhes dá as armas e as divisas para combater? Por que motivo os senhores da guerra têm conta no banco também na Inglaterra?
A denúncia global do missionário comboniano prossegue sobre os temas da Aids e do comércio dos fármacos: “Alguns pesquisadores encontraram a cura, mas não permitem que isto se desenvolva. Muitas casas farmacêuticas vêm aqui para a África e fazem os experimentos nas pessoas. Mas, se depois encontram a cura certa te dizem que não tens direitos. O que pensam os nossos irmãos católicos de tudo isso? Lamentarão e dirão que é pecado? O que dizem a isto as companhias farmacêuticas?” A Igreja, continuou, deve denunciar as contradições da época: “Por exemplo, no Zimbábue, Mugabe roubou os votos, matou a mulher de seu primeiro ministro, mas vai constantemente à missa e toma a comunhão. Isto não pode andar bem”. E ainda: “A Igreja diz: ‘A paz esteja contigo’. Mas, que sentido tem isso se a paz não existe, porque existe a fome e há as guerras? A Igreja deve empenhar-se no terreno concreto da construção material da paz”. 
Segundo o missionário comboniano, no fechamento deste Sínodo, a Igreja deve assumir sua responsabilidade de mudar de rota, e ele propõe sua receita: restituir a Bíblia nas mãos do povo, propondo uma versão economicamente acessível a todos; recuperar a tradição cultural africana da comunidade e da solidariedade, liberando-a das incrustações coloniais européias; restituir a palavra e o poder à mulher, que sozinha manteve unida a África, na sociedade mas também na Igreja; restituir dignidade aos jovens e às crianças, conduzindo-os aos centros dos programas formativos e paroquiais; vigiar constantemente as multinacionais que atuam na África, a fim de conter a rapina dos recursos e os abusos de poder contra as populações locais.